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ACEITAÇÃO
 

Quando tive que pensar sobre o assunto para este primeiro texto, aceitação estava no topo da lista. Na verdade, a ideia foi do meu marido e creio que o escolheu porque vê a aceitação como o fator decisivo para o êxito que tivemos até agora no tratamento do autismo.

 

O fato é que a aceitação é começo, meio e fim. É o aspecto mais complexo e de maior importância após o recebimento de um diagnóstico.

 

Digo que é complexo porque o ato de aceitar implica em receber não só um diagnóstico, mas uma vida nova, cheia de mudanças, que não foi desejada.

 

Aceitar o diagnóstico significa admitir que a vida nem sempre é perfeita, que talvez você tenha falhado em algum momento, que as pessoas vão julgar - você, o seu filho, a sua família, as suas atitudes-, que mudanças serão necessárias - e por vezes muito desconfortáveis - , que a sua vida terá aspectos muito diferentes da dos seus amigos, que você terá dificuldades, que você precisa agir rápido, que em alguns momentos perderá o controle da própria vida, que você precisa aprender sobre algo que nunca cogitou estudar, que seu casamento vai sofrer abalos e, o mais importante de tudo, que a felicidade do seu filho nunca esteve tanto nas suas mãos!

 

Sabemos de tudo isso no início? Não, mas intuímos, com certeza. E é por isso que é tão difícil, porque secretamente sabemos o que vem pela frente e o quanto isso nos exigirá! E é também por isso que digo que a aceitação é começo, meio e fim. Pois o ato de aceitar será exercido constantemente, a cada mudança, a cada novo e necessário encaminhamento no tratamento. O ato de aceitar precisa ser perseverante e, por isso, precisamos ser resilientes, para dar conta de tantas mudanças -as internas principalmente - e tantas exigências.

 

Sempre que ouço um relato, geralmente carregado de pesar, de que uma família não aceitou bem o diagnóstico e que por isso o tratamento não está avançando, sinto uma enorme tristeza, principalmente pelos

pelos pais, porque sei a intensidade dos conflitos que estão passando. Nesses momentos tenho vontade de explicar como isso é difícil, tudo o que requer, e que precisamos de mais apoio e menos julgamentos.

 

Aos pais tenho vontade de dizer que esse conflito, essa angústia, é natural. Explicar que não se aceita do dia para a noite, mas que iniciar o tratamento o mais rápido possível vai ajudar, inclusive, a aceitar. Digo isso porque, à medida que avanços vão sendo conquistados, vamos recuperando algum controle de nossas vidas. Quando fazemos um esforço em aceitar, e não esconder, as coisas vão ficando menos complicadas, a empatia vai sendo gerada, os amigos verdadeiros se solidarizam e procuram ajudar e então, em determinado momento, você percebe que a vida nem ficou tão diferente assim, que é possível incluir essa sua nova realidade na vida que você tinha antes, que aos poucos as pessoas se adaptam e passam a respeitar o resultado disso.

 

Aos amigos e familiares, tenho vontade de pedir para que compreendam, ajudem e não julguem tão rapidamente. Nessa fase nos sentimos sozinhos, isolados numa ilha sem saber para que lado ir. Precisamos de incentivo, de compreensão, de ajuda prática. Precisamos de parcerias para os momentos difíceis e para comemorar as conquistas também. Precisamos ter com quem falar sobre o assunto, precisamos pedir colo e socorro.

 

A boa notícia é que, apesar do processo ser complexo, acabamos encontrando um caminho e conseguimos reencontrar um pouco o ritmo de antes. A vida nunca mais será a mesma, mas pode vir a ser muito mais interessante. Por isso, tenha calma, se respeite, e pratique a aceitação aos poucos, mas constantemente.

 

A única coisa que precisamos aceitar rapidamente é o início do tratamento, porque isso não é sobre você, e sim sobre o seu filho. Mas, sobre isso, falaremos adiante!